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escrevendo no escuro
 


OBSERVAÇÃO

HÁ MAIS TEXTOS AQUI DO QUE ESTES QUE APARECEM. VÁ EM 'HISTÓRICO', NA BARRA DA DIREITA, E CLIQUE NAS DAS DATAS MAIS ANTIGAS.

Escrito por juliano às 07h18
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cachorros

Ficou ali na rede acompanhando o cachorro que parecia meio louco. Que girava atrás do próprio rabo. Que ia pro nada. Então ele, da rede, pensou quanta gente persegue o próprio rabo. Chegou à conclusão de que um rabo nada mais é do que um rabo. E lembrou que humanos não têm mais rabo. Continuava na rede. Mas agora observava o cachorro da rua que, ao contrário do seu, tinha direito de ir e vir. Pensou qual a liberdade daquele cachorro miserável, que descansa eternamente do seu descansaço. O cachorro está todo dia ali, às vezes no meio da rua, às vezes na calçada, às vezes procura sombra, às vezes buzinam (quando ele não quer sair do meio da rua). Às vezes dão comida pro cachorro, que não tem o costume de agradecer, apesar de abanar o rabinho de pulga. Uma vez o cachorro escapou por pouco das rodas grandes de uma caminhonete. Ia ser morte na certa. E ele percebeu isso depois de pensar um pouco sobre o acontecido. Seu coração bateu como nunca. Nem quando vem aquela cadelinha no cio, louquinha pra dar, seu coração bate tanto. Lembrei que às vezes acontece de uma cadelinha no cio dessas chegar na rua e causar o maior alvoroço mesmo sem dar um latidinho. E os cachorros da rua parece que riem dos que estão trancados, privados da liberdade sadia de transar. Privados da rua, do lugar do cachorro. O cachorro do cara da rede se sentia, às vezes (tudo às vezes), um objeto comprado apenas para proteger a casa e fazer rir as crianças. Como deve ser ruim a sensação de saber que se tem uma nota fiscal! Mas ele se conformava. Sabia que não ia ser bom, pois, decerto, o manual de instruções dizia que “se o animal se rebelar, a loja troca por um melhor apto à vida doméstica”, então ele tirava já o pensamento da cabeça e trocava por um menos perigoso. Ele não era revolucionário. Revolucionário não se preocupa com a própria nota fiscal, com o risco de ser devolvido. Uma coisa que o confortava era pensar que havia sido comprado numa loja legal, com alvará e tudo. Tudo bem que foi comprado, que é objeto, mas pelo menos seguiu a lei, ao contrário de muita gente. Sentia-se bem ao imaginar uma parte do dinheiro gasto por seu dono indo-se através de algum imposto. Contribuía para o crescimento do país e, portanto, da sua rua e, portanto, com a limpeza de sua rua e, portanto, com a retirada daqueles cachorros livres que comiam as fêmeas que vinham se rebolar de vez em quando. Afinal, já que ele não pode comer, é melhor que ninguém mais coma, pois assim a sensação de impotência é um pouquinho abafada. Realmente ele sabia manipular seu cérebro pequeno. Sua rotina era assim: de manhã, no friozinho, ia pro solzinho. Saia quando começava a abafar por dentro. Ia pra sombra, carregado de calor. Descarregava o calor e voltava pro solzinho. E ficava nisso durante a manhã toda. Já de tarde era diferente: começava pela sombra (pois já tinha uma reserva de calor em seu corpo) e ia pro sol assim que esfriava. No inverno não gostava da grama. Nem no verão, porque pinicava. Então ficava na calçada da varanda ou, às vezes, na brita. Ainda às vezes, corria pelo terreno, daí ignorava o que era grama, o que era calçada ou o que era brita: era tudo obstáculo que ele pulava e se imaginava fora do cercado, perseguindo alguém, algum gato branco, algum passarinho, ou, se fosse policial, algum desses fora-da-lei, que ele odiava tanto. Pulava arbustos, e tudo o mais. Quando chovia e fazia calor, escorregava displicentemente pela lama da grama, numa região de gramado que nem grama tinha mais, só a lama mesmo. E daí ele se esbaldava, caía, corria, se sujava, ria, voltava. Seu dono, às vezes o perseguia. Eram esses os momentos que faziam valer aquela vida infame de cachorro preso que era. Seu dono já tinha jogado seu recibo de compra há tempos no lixo. Aliás – e isso não podia ser dito ao cachorro – jamais houve uma nota fiscal. Não, o cachorro não contribuiu com a nação. Não contribuiu para tirar os outros cachorros da rua. Essa que era a verdade. Ele havia sido comprado de um amigo de um amigo do seu dono que ainda achou muito receber um recibo por um guapeca. Foi só o seu dono chegar em casa depois de tê-lo comprado que já jogou o papel no lixo da cozinha, junto com casca de banana e sobra de feijão e de arroz. Mas de nada disso o cachorro precisava ficar sabendo, de nada adiantaria. Deixa ele continuar achando que a carrocinha ainda vai passar na sua rua financiada, um pouquinho, pela sua compra. Deixa que assim está bom pra ambas as partes: ele ali dentro brincando na lama, e o outro lá fora achando comida na lama, enquanto um outro fica na rede só olhando.

Escrito por juliano às 07h12
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conga, música, escrevendo

na conga eu bato o tal o do estresse. é também -nojentamente falando- um instrumento de fuga. um happy hour. queria ficar descarregando nela o dia inteiro. engraçado que há algum tempo, o protagonista disto aqui seria o violão. o violão ainda existe. o bongô existe. cantar é a melhor coisa. a música é a melhor coisa.

a elba ta cantado um negócio do chico. como dá pano pra manga escrever ouvindo coisas. assim como olhando. tem músicas que dão uma coisa inexplicável, tipo essa de agora, 'o meu amor'. algumas músicas conseguem acordar alguma coisa aqui de dentro. despertam a ansiedade. trazem uma angústia, uma alegria, uma vontade, um amor. a gente se descobre ouvindo coisas. ouvindo, essas coisas acordam e tomam forma, e a gente as percebe, finalmente. depois de tanto tempo lá entaladas na inconsciência, emergem. alguns conseguem fazer música que consegue fazer isso. bjork, chico, caetano, adriana calcanhotto, piazzola, ed motta, tim maia, etc. eu gosto dessas coisas pra dentro. bjork é completamente expressão de coisa lá de dentro, assim como a música de chico, algumas de caetano.

alguns podem me ler. mas ninguém pode me ver escrevendo.



Escrito por juliano às 23h22
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programão em curitiba

(depois de ler metade de "um copo de cólera")
programão em curitiba: ô tapiocas gostosas: de carne de sol e de goiabada com queijo catupiry: passou um dia sem comer e a elaine já ficou deprimida, e aquela praça osório tem tantas gostosícies, como o taco e o suco de cupuaçu, também o pierogi (o cozido) é muito bom, vale a pena, mesmo num puta frio, e lá em curitiba cheguei à conclusão de que não curto quentão, e como tem gente que gosta, pra ter uma idéia, no sábado à noite, às dez, a fila pra sua barraca dava uns dez passos, mas não entramos nela, entramos na do sanduíche de calabresa que era bem melhor.
 
fomos no mafalda, onde a elaine já trabalhou, lugar aconchegante, gostoso, assim como a comida (ô carbonara -do manoel- e fetuccini gostosíssimos), mas só o que incomodava era o pessoal de uma mesa logo adiante, que falava alto sem porquê e forçava os outros a competirem pra ver quem falava mais alto, numa confusão de conversas, decerto falavam porque já tinham parado de comer, idiotas, comem e, ao invés de cuspirem no prato que comeram, cospem no ouvidos dos que ainda comem, fazendo-os sentir nojo daquele catarro sonoro mas o ambiente, de tão legal, não conseguia, apesar dessas coisas contra, tornar-se um saco.

Escrito por juliano às 23h07
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plágio e etc

no jornalismo, plágio é quando um cara pega, por exemplo, um texto alheio (à base ou não de google), diz que é seu e publica como sendo seu. entendido. agora, e quando um cara faz um texto, diz que é de outro e publica como sendo de outro, de alguém famoso, só pra ser lido? como é chamado? e por que alguém faria/faz isso? duas razões possíveis: 1) só para receber, depois de três meses, o mesmo texto encaminhado por email por um amigo dizendo que "são esses textos que fazem desse autor --o famoso-- um gênio!". então o cara se orgulha. ele não é exatamente um mala, não quer, em princípio, ser estrela, pois quer apenas que seu texto seja lido, usando do artifício --por certo, muito eficaz-- de atribui-lo a alguém famoso. 2) quando o cara não é famoso e quer fazer alguma política, queimar o filme de alguém, etc. acho que isso acontence bastante por aí. e quanto mais isso acontece, menos confiável fica a internet e mais putos ficam os autores famosos e suas assessorias. quando recebo um texto com essa suspeita, leio com um pé atrás, mas às vezes caio e acabo encaminhando.

Escrito por juliano às 14h49
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a arquitetura (ou a brincadeira --de alguma forma-- de)

a arquitetura (ou a brincadeira --de alguma forma-- de) te força a ver as coisas de cima e reparar, por exemplo, que neste meu setor há um posicionamento geográfico claro de cada empregado de acordo com sua função. Na entrada do setor, está alguém que recepciona (mesmo que não tenha essa função no seu contrato), depois estão alguns cabeças (o cabeça maior/presidência/reitoria) e, ao fundo, a linha de produção, num canto bem pouco visto.

Escrito por juliano às 14h30
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copo descartável

um copo descartável com um dedo de água. completamente descartável. completamente agora. toma ou joga fora. o pouco de água pode sobrar. nem copo nem água vão fazer diferença nem aqui nem no mundo. é só um copo com água dentro do copo de água pouca em um copo mole e branco feito pra segurar água descartável e apressada. se deixar o copo ali, de lado, ninguém vai beber. ninguém valoriza, mas niguém pega o copo do outro. esse copo pode causar acidentes diversos. pode molhar o chefe, pode cair na calça... a água pode acabar, e no calor fica complicado. copos descartáveis estão cada vez mais finos. daqui a pouco não existem mais. teremos copos virtuais. cada vez mais finos e cada vez menores. cada vez mais, o fio de água do bebedouro é mais fino. água é cara. água está ficando rara. água está ficando mais pra drink do que pra se molhar e matar a sede.

Escrito por juliano às 14h28
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