meio dia, no trânsito
Era meio dia, quente que era botar ovo no asfalto pra ter prato frito. Era o centro da cidade, caótico, como sempre, como todo dia, e, como todo dia, todos os motoristas ali faziam o mesmo trajeto, mas sempre reclamavam com entusiasmo de coisa nova. O calor fazia as pessoas, inconscientemente, procurarem chifre em cabeça de boi, qualquer coisa que fosse percebida errada, mesmo que o cidadão não tivesse nada a ver, já era motivo pra soltar a raiva do calor. Alguns afortunados, de vidro fechado, prestavam a atenção em alguma música ou curso de inglês na intimidade de seu carro. Esses pareciam não se estressar.
Mas algo de diferente aconteceu naquele dia: o sinaleiro quebrou. Era motivo mais de riso do que de raiva. Ou os dois juntos. A confusão tava feita. Se antes, com regra, já era uma zona, agora mesmo era cada um por si e que se dane o outro. E naquela de vai-não-vai-e-acaba-indo, um de lá se choca com o que vinha daqui. Agora é o samba do crioulo doido. Quem ta atrás dá um tapa na testa e quem ta na frente ri ou lamenta os que estão lá atrás, confortando-se logo em seguida com a convicção de que nada pode ser feito. No meio do alvoroço, os dois motoristas envolvidos são obrigados a descer do carro e a esquentar a cabeça mais do que o sol deu conta de esquentar até agora. E o pior é que os dois tinham e não tinham razão. Ligaram pra polícia. “Ok, a polícia já está vindo... só falta passar por esse congestionamento!”. O outro dá um tapa na testa. Já que a polícia vai demorar, ambos vão tentando convencer o outro da sua razão. Já tem gente buzinando. Todo mundo atrasado. Pelo ladinho dá pra passar com cuidado. Parece um funil, uma peneira de carros. Não chegam a consenso. Ambos já pensaram milhares de vezes “merda, caralho, bosta, filho da puta, desgraça”... tentavam achar um porquê para aquilo ter acontecido. Os dois estão mais do que nervosos. Um deles, falando pela milésima vez o mesmo argumento, só que agora bem mais exaltado que as outras 999 vezes, joga seu corpo nervoso contra o do outro, caindo sobre o capô fervente de um dos carros. Começam a brigar, dois pais de família, que é isso, um tem os óculos quebrados, e quebra o nariz do outro, um dá uma canelada no saco do outro, o outro bate com o queixo na mão fechada do um, e os motoristas dos carros de trás, ferventes – motoristas e carros – se demoram pra sair. Medo de arma. Medo de soco, de faca. Um tem o estômago fortemente atingido ao ser jogado contra o capô do próprio carro, cai no chão, fervente como tudo ali, e protege a cabeça. E chora. Fecha-se como caracol, chora desgraçadamente... vem à cabeça a desgraça que está sua vida. Que está a vida do outro que lhe bate, provavelmente. Chora compulsivamente, repetindo “que desgraça, que desgraça”... o outro não volta a lhe bater. Olha sobre os carros, e vê um policial vindo a pé, correndo.
Escrito por juliano às 22h29
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Gastreete
Há algum tempo ganhei um presente inesperado da natureza. É uma filha, e está dentro da minha barriga. É uma gravidez indesejada, e que ainda exige dieta especial. Não chuta, mas morde. E lambe com a língua mais áspera de todos os fetos, além de fazer um xixi quente e ácido. Deve fazer cocô também, pelo jeito que é maldosa. Faz tudo isso por birra, pra tirar sarro de mim.
E eu não posso abortar.
E, como se não bastasse, a filha maldita ainda estende seu fino braço até meu esôfago e, lá, fica me arranhando com sua unha.
Assim como qualquer gestante, não posso beber como antes.
E o mais humilhante é que não sei direito nem quem é o pai!
A filha, protegida em seu berço, brinca e me maltrata até enjoar. Aposto que seu sonho era crescer e virar uma úlcera, pra encher ainda mais o saco e receber ainda mais cuidados. Se eu pudesse vomitá-la, evacuá-la, mijá-la, se um soco a matasse, se esse buraco que a gente chama de umbigo tivesse alguma utilidade. Se meu braço fosse mais fino e habilidoso eu a tirava lá de dentro. Se comer vidro a mutilasse, se as drogas a fizessem ter overdose.
Se o álcool a embriagasse e a fizesse querer sair ao mundo, pensando ser úlcera, com condições de engolir a todos os fracos de estômago... Então ela sairia de mim, boba, e eu esmagaria a filha sem dó. Sem qualquer amor materno.
(Ler/ouvir "Uma canção desnaturada", de Chico Buarque)
Escrito por juliano às 14h32
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Notícia inesperada
A notícia foi inesperada ao sair daquela porta, lembrou da primeira vez que entrou parecia que tudo, agora, valia mais que ele se sentia à parte, se sentia traído pegou o ônibus e sentiu que tinha muito mais peso nas costas, agora, do que todos ali olhou para uns que conversavam e riam não sabia se ficava com inveja, ou se ficava com raiva imaginava todo mundo empregado menos ele pensou nessas estatísiticas.. agora ele fazia parte pensou se não seria uma tendência, todo mundo ficar desempregado, efeitos do capitalismo comeu um pastel ao dar o dinheiro, olhou para a nota, que agora parecia ter mais três zeros era preciso pensar era preciso não se desesperar caminhou passou por um ponte e lembrou que é doce morrer no mar.
Escrito por juliano às 14h14
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