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escrevendo no escuro
 


O menino chega, sem conhecer ninguém, ao local onde jogam o barco ao mar. Mora longe. Está ali por curiosidade. Uns 8 anos tem ele. Olha o ritual dos pescadores de sair ao mar e quer ajudar. Ninguém olha para ele, ninguém agradece a força a mais, ainda que pouca, mas de bom coração. No entanto isso não o afeta. Só quer é pisar naquela areia. Participar de alguma coisa, fazer algo que o torne um pouco habitante dali. Era seu sonho ser natural da praia. Queria era pisar ali todo dia, ajudar todo dia, ver chegar barco todo dia, mas não dava. Tinha a escola, a irmã pra cuidar, o sono pra dormir de noite. Era cheio de compromissos já aos 8 anos. Por isso ia aproveitar o feriado, e pisar bastante ali, sentir o granulado entre os dedos, um pouco dentro do calção ao sentar, molhar até o joelho seu corpo, e ficar antenado em todas as coisas que pudesse participar e que se fazem na areia. Castelo não queria, isso era coisa de guri que não é da areia. Era o que pensava. Não se pensava necessariamente adulto, mas criança do mar e da areia, que come peixe todo dia. Na sua vida real, peixe era só em época, que era mais barato. Senão ia galinha mesmo, que era mais fácil de criar, mais à mão, e não tinha tempo de espera por causa do acasalamento. Mas galinha não tinha graça – mesmo que fosse a caipira. O negócio não era o gosto, mas o símbolo da coisa. Queria comer peixe, mesmo que fosse menos gostoso que uma caipira.

Passou o tempo, algumas horas, ainda sol, e viu uma menina, aparentando a mesma idade. Ela era filha de pescador, e comia peixe todo dia, com farinha e tudo. Ela chegou perto e perguntou o nome, ele disse, e conversaram. Descobriu que a menina tinha sonho de morar em sítio, e comer galinha caipira todo dia. Mar era bom, mas só mar enjoa. Ela ajudava o pai todo dia, com o barco, e a mãe, todo dia também, com a casa. Tinha 8 anos mesmo. Ia pra escola de manhã, como ele, e conhecia todo mundo da região. Disse a ele que uma vez conheceu um outro menino, há poucos dias, que viera pegar sol naquela praia, coisa que ninguém fazia. Todo mundo trabalhava, e também se divertia, claro, ninguém é de ferro, mas geralmente o pessoal mora por ali. Mas esse não. Esse vinha da cidade, e da grande, e comia várias coisas durante a semana. Ela contou que o garoto comia até coisa industrializada, difícil de falar, mas mais fácil de comer. Era um dia de sol, e a menina dava volta por ali, quando viu um carrão parar, meio sujo de poeira, como quem atravessa o mundo pra chegar. Pararam e estenderam toalha, cadeira e caixa de isopor. O pai, devia ser o pai, abriu uma lata de cerveja.

O menino da galinha caipira ouvia a história de ouvidos bem abertos, com curiosidade parecida com a que tinha quando os pescadores lançaram o barco ao mar.

Escrito por juliano às 23h20
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