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BRASIL, Sul, JOINVILLE, Homem, de 20 a 25 anos



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escrevendo no escuro
 


Ergui a perna esquerda. Os dois braços, com suas respectivas mãos em mesmas posições, viradas para fora, com palmas para trás. Quadro dedos de cada mão agarraram-se nas madeiras, uma de cada lado e paralelas. Centésimos de segundo depois, utilizados para um longo e detalhado exame de firmeza do material que me seguraria pelos próximos centésimos, dei impulso com aquela mesma perna que havia dado o bote inicial, e meu corpo entrou pelas duas madeiras verticais paralelas e ali estacionou. A perna direita, tendo como ponta o meu pé direito, chegou onde a outra já estava desde o início, também uma madeira, mas na horizontal. Juntas abaixo de mim, como de praxe, ambas colocaram seus respectivos pés bem pertinho uns dos outros. Reposicionei as mãos. E olhei para baixo. Ali estava ele: o chão do outro lado, diferente daquele que eu acabara de deixar. O ambiente já era outro, a atmosfera outra. O que fiz não passou muito de deixar o corpo cair, apenas com uma leve, mas importantíssima, ajuda dos quatro membros, inferiores e superiores, para que a queda fosse o mais confortável possível. Percorri, no ar, uns 120 centímetros. Não deu tempo para pirar. Meus pés, de olhos e narizes fechados como quem mergulha, chegaram antes de qualquer outra parte do meu corpo. Depois aterrissaram as mãos, numa função mais de estabilizar o resto do corpo, para que a queda não fosse patética e, porventura, dolorosa. Fizeram bem aquilo a que estavam designadas. Nenhuma torceu o nariz de contrária, nem o pulso de imprudência. Os pés continuaram no chão, com sua fundamental função de sustentar todo o resto, e as mãos voltaram à sua altura normal, próximo à cintura – esta se encontrava no meio de tudo. A coluna fez sua função de reestruturar tudo, deixando o corpo novamente com cara merecedora de respeito. Foi bem fácil pular aquela janela.

Escrito por juliano às 15h43
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Viver é mais que crescer
é querer achar o fim
Do saber, da lei, da vida
Do nada
De tudo, de si.


O trecho acima é da música "Dor e Prata", do Djavan, e se alinha perfeitamente à afirmação de Roberto DaMatta de que a sina do homem é buscar explicação para tudo em sua vida, feita no livro "O Que Faz o Brasil, Brasil?".

Escrito por juliano às 22h56
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última

É um verde vivo, no fundo.... e teu semblante em primeiro plano, reforçando um cabelo e um olho preto vivos e puxados, os olhos. Como num clipe, apareceu o instrumento, vizinha tu, eu tolo

Meu olhar vivia de sonho e fantasia.... do nosso lado, um verde vivo, tudo vivo.. um rio.. eu andava assim.. sem carinho? É como uma moça da abertura do Fantástico, de antigamente, lisa, brilhosa, bonita.. sorriso, braço estendido para baixo... eu, tolo nem tanto.. molhada, estava em seus braços...era dia, sim... e dia bonito... mas meu olhar via que estávamos sozinhos.. nem viam a gente... a água um pouco gelada... eu seco, quem sabe o pé molhado... e você uma aparecida... surgida, nascida, saída daquela água... uma nossa senhora, um sonho, um milagre, e eu o primeiro e abençoado homem a vê-la e, por isso, com o direito de ficar com você para sempre. Um abençoado.

E há uma leve tensão, uma tensão flutuante... vadios, quem sabe dizendo foda-se à frente... ah uma esteira e um côco... passarmos a tarde juntos, num sol... mar, rio, tanto faz... estamos ali, aproveitando uma vida que há de acabar e ficarmos pó... então aproveitemos nossa carne e nossas carnes... uns aos outros... é tudo novo o que queremos ver.... somos é crianças... sem querer ver aquilo que parece ser a realidade, aquilo que se vê sóbrio, portanto, de certa forma sombrio...preto, sem assobio.. o que arde não é o sol da praia, mas o calor gerado por ele , na cidade, dentro do paletó... à noite, uma pizza previsível, um filme... coisas cinzas...

Nós não... nós queremos nós, um pouco hippies... várias tardes com sóis ardendo gostosamente... e simplesmente... ô!...falarmos pouco, olharmos muito, pensarmos e viajarmos muito... bastante mesmo.. com água fresca.. até uma pizza depois, mas agora não.

Estamos em alguma parte da América do Sul, quem sabe, Peru... estamos vendo um horizonte curvo, com montanhas ao fundo, verde de neblina... e olhamos para o outro, e sorrimos... e vemos o friozinho perto de nós e agradecemos por sermos nós... olhamos a pequena clareira que abrimos com os pés.. e vemos como podemos ocupar pouco espaço no mundo... e sermos nós.. que gostamos de música, de roupa de lã preta.. e eu de teu desenho de olhos bonito um monte, raro um monte... e na tua pele alguma coisa de macio... e uma insegurança que gosto porque me identifico, quem sabe... cabelo liso preto... não é perfeita, tem defeitos como eu, como admitimos... tanto eu quanto você estamos um pouco insatisfeitos com as obrigações de nossas vidas..

O Chico Buarque escreveu o que se passa à minha frente... aquela sensação seja do que for.. acordar tarde.. ficar com sono, é tudo meu! Uma janela, num terceiro ou quarto andar, aberta, um centro de cidade, de manhã cedo, dia de semana, mas que não trabalhamos, um o mundo inteiro acordar e a gente dormir, dormir, ou viajar pela janela... espreguiçar... e há uma atmosfera leve sobre nós.. um cobertor azul, com xadrez preto, de lã... a noite inteira ficamos fazendo alguma coisa juntos, criando alguma coisa, ou quietos.. até mais tarde.. incensos, tudo leve, fiapos do tapete, à meia luz de uma lâmpada quente, amarela.. Um LP.. mesa de centro baixa. É de madrugada..agora já o céu está azulando.. já dá para ver os contornos das nuvens, parecem carregadas de chuva, de peso..aos poucos vão ficando brancas, clareando..e as coisas vão clareando e ganhando cor, acordando, nós as vendo acordar, o mundo inteiro acordar, e as coisas vão adquirindo movimentos, se mexendo. E a calçada, que vemos lá embaixo ao entortarmos um pouco o tronco, está sendo cada vez mais pisada, a cada hora mais gente chega, sei lá de onde, de perto ou de longe, à pé ou de metrô, para este ponto de ônibus, que deverá andar uns 20 minutos, até parar e o motorista desaparecer com ele, para sempre até o dia seguinte.. aliás, passageiros e motoristas de ônibus tem uma relação interessante. São amigos apenas uma vez por dia, quando lembram, inevitavelmente, um do outro. Quase sempre com aquela cara de "saco". O passageiro saiu da mesa, acordou e se preparou para sair depois do motorista. Este sim, acorda para levar os outros, amigos uma só vez ao dia, para seus postos de trabalho. E lá ficam até a volta, à noite, quando o tempo se prepara para repetir a apresentação de hoje de manhã.

Cortando tudo isso pelo meio, furando transversalmente, estão boêmios e operários. A geral está dormindo, são eles a engrenagem maior, de mais dentes.. Os boêmios e os operários com formatos de boca diferentes ao mesmo tempo, com roupas diferentes.. com cheiros diferentes, com posturas de coluna diferentes, com preguiças e disposições diferentes, com responsabilidades e irresponsabilidades diferentes. Num bar, à beira de uma via movimentada, ao amanhecer, bebem os operários do dia, que iniciam com uma bebida para aproveitar um fiapo de fim de semana, de boemia antes do trabalho – ou para estenderem seu último sonho da noite, em que estavam à beira da praia bebendo ou mesmo para fingir o conforto da cama que agora já esfria e se arruma.


Escrito por juliano às 00h11
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