| |
Criam-se imagens para descrevê-las e achar bonito, auto-elogiar-se e se achar um pouco gênio ou poeta por um momento, 15 minutos. Quero pensar em alguma coisa inovadora, inventar, descobrir... mas minha cabeça acaba se distraindo! Enquanto escrevo, minha mente descansa. Nessa hora, há auto-elogio. Ver-se, de fora, e achar o máximo, coisa de artista, artista por um minuto, ou aqueles 15 minutos. Estou com dor de garganta, ouvindo Blur, o Ariano Suassuna me olha dali. As prostitutas ao seu lado estão nas delas, como de plástico na vitrine. Está ali o travesseiro que espera eu terminar minha festinha. Parece um funcionário, aguardando pacientemente. Tipo um motorista que espera seu patrão. E tem a mochila aberta, com milhões de tarefas me olhando. Aguardando pacientemente para serem cumpridas. Algumas vão caindo num abismo. Não são feitas, e o mundo não acabou por isso. Algumas, parece, não precisariam ter existido. Elas recolhem-se ao fundo imundo e escuro da minha mochila. Vão caindo no precipício. E engraçado que estão a toda hora coladas nas costas de seu executor. Meu quarto é um cemitério de tarefas gigante. Se fuçar, vou achar coisa do arco da velha. E os cds. Com alguns, como o do Tim Maia e do Bob Marley, tive várias emoções, vários momentos, e agora estamos tão distantes. Parece que cada um tomou o seu rumo, eu à rua e eles à gaveta, junto com uma comunidade de cds. Cada um procurou a sua espécie e com ela está se dando bem. Eu e esses alguns cds até podemos nos cruzar por aí um dia, pelas ruas centrais de uma cidade comum a nós dois, numa espécie de fronteira cósmica entre a rua em que ando e a gaveta em que sentam. Mesmo assim, não vamos sentir grande falta um do outro. Isso é só uma hipótese. Segundo ela, eu e eles passaremos bons momentos, como um fim de semana. Mas chegando o domingo à noite, levo para a rodoviária e nos demos tchau através do vidro, após trocados ou atualizados telefones, emails, msns e orkuts. Um até adiciona o outro, manda um email ou outro, mas logo fica naquela conversa de "a gente combina alguma coisa". E aí só na próxima formatura de um amigo em comum. Pois bem, voltando aos cds, em alguns eu penso de vez em quando. Como o do Led Zeppelin. Acho que foi depois de ver Quase Famosos. Na sua comunidade, eles estão bem. Também não gostariam de sair de lá, pois é lá que estão seus semelhantes, sua manada e grupo com o qual se identificam. E aqui do lado de fora é a mesma coisa.
Escrito por juliano às 08h43
[]
[envie esta mensagem]

Peguei uma gripe ontem. Mas minha noite de hoje já foi bem melhor que a anterior. Acordei poucas vezes.
Uma coisa que percebi: quando me machuco, ou fico com a saúde ruim por algum motivo, fico sensível. Acho que rola aquele negócio de valorizar mais as coisas após ver que somos também destrutíveis, e que um dia vamos acabar. Uma vez entrei num site do governo (aids.gov.br), em que tinha um chat de pessoas que contraíram aids. Lembro que um cara escreveu que, após a doença, sua vida melhorou, pois passou a vê-la de uma forma diferente, valorizando muito mais tudo ao seu redor. Parece que, quando estamos bem de saúde, ficamos chatos mais facilmente.
De qualquer forma, é melhor sair de uma gripe que entrar nela!
Escrito por juliano às 08h34
[]
[envie esta mensagem]

Dor
A dor está em filmes, quadros, letras, movimentos, sons. A arte é um meio de expressá-la.
Intra-ambiente-familiar, há o medo e a vergonha de desviar uma histórica conduta para expressar uma dor. Com isso, ela fica presa lá dentro de nós. E, então, corrói, pois não nasceu para a prisão. Ela sabe que há meios de soltá-la, e assim usa uma corrosão para sair à força. Se isso fosse impossível, ela ficaria quieta. Aos poucos, a dor vai comendo como uma minhoca. Segue percorrendo caminhos difíceis e, às vezes, consegue chegar aos olhos em forma de lágrimas. Quando maior o caminho interno percorrido, mais estragos são feitos. Afinal, ela é impiedosa, pois sabe que existe e sabe nós também sabemos disso. Enquanto a dor abre suas galerias pelo corpo, às vezes optamos podemos usar artifícios para ajudá-la em sua caminhada rumo à dissipação. Ou usamos artifícios para adormecê-la. Mas não matá-la.
Às vezes ignoramos. Esquecemos de propósito. E o corpo aprende esse processo. Mostrar a dor, tanto para si quanto para outras pessoas, fica, então, difícil.
*
Recolhida ao meio médico, está a Associação Internacional para Estudos da Dor (International Association for the Study of Pain - IASP). Para eles, "dor" quer dizer o seguinte:
“Experiência sensitiva e emocional desagradável associada ou relacionada a lesão real ou potencial dos tecidos. Cada indivíduo aprende a utilizar esse termo através das suas experiências anteriores.”
Escrito por juliano às 01h33
[]
[envie esta mensagem]

|
|
|