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BRASIL, Sul, JOINVILLE, Homem, de 20 a 25 anos



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escrevendo no escuro
 


3 reais

Na subida do morro já as tinha visto, eu de carro, as duas a pé. Uma grávida, a outra mais baixa e magra. Uns 15, 20 anos. Na segunda vista, eu na cozinha, elas na calçada vizinha. Pensei que subiriam sem tocar o interfone.

Tocaram o interfone. Fui atender, a magra pediu alguma ajuda. Ofereci 3 reais; ela pediu água. “Pode ser gelada?”, surpreendi, na volta, carregando uma jarra de vidro da geladeira e dois copos. Estavam indo para o Itinga. A pé?, não, de ônibus. Água bebida, dei tchau. Toca o interfone de novo. Tinha esquecido de dar os 3 reais.

Escrito por juliano às 12h43
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25/12/2006

Saí do meu penúltimo apartamento num 9 de março chuvoso de 1990. Era feriado, aniversário da cidade. Há três sextas-feiras (8/12/2006), um velho me disse, no ponto de ônibus, que mudança em dia de chuva significa moradia longa. Nesta casa fiquei 16 anos e meio. No dia em que ele me disse isso, estava garoando. Eu estava no ponto de ônibus da rodoviária esperando meu pai trazer a Courier (que chamo de Saveiro) para levar as primeiras, e maiores, coisas para o novo apartamento.

Escrevo agora da “casa dos meus pais”, lugar que conserva meu quarto praticamente como deixei.

No apê, nossa porta é a 205. Achei bom dois extintores bem à frente dela. O 204 parece desabitado. O 206 (?) tem gente, mas nos cruzamos pouco. No 306, é o José, dono de tudo. No 101, Alexandre, que parece gay, sozinho, legal. Já no 102 mora um cara que não parece querer muita conversa. Acho que duas gurias moram ali também. Ele tem um monza, e deve ter riscado muito os pára-choques para aprender a pô-lo na garagem com certa agilidade.

Tenho a impressão de que já senti cheiro de maconha por lá. Uma casa meio antiguinha faz muro com o prédio. Acho que mora gente velha ali. Ficam mais no pavimento térreo. A janela da casa que dá de frente para a janela do Sandro, e de diagonal para a minha, teve suas persianas fechadas há poucos dias. Até então, só ficaram entreabertas e nunca vi gente circulando naquele cômodo.

Quero um disco do led zeppelin. Aliás, quero dar uma mexida naquele meu repertório de lp e cd. Assim como é urgente uma limpeza. Imagino como seria infernal se eu tivesse rinite. Infernal, não, impossível. Aquele carpete já deu pra bola.

De dinheiro e faculdade não quero falar. O espírito natalino só admite coisas boas.

Falta alguma coisa na parede do meu quarto. Penso em alguma coisa em preto e branco.

Uma regra vou ter que aceitar. O apartamento do cara do monza é o único caminho para aquela brita abaixo do meu quarto. Se mais coisas caírem – além da pimenta e do copo –, vou ter que bater na porta dele de novo.

Falta uma estante no meu quarto. Ela deve dar a ajeitada final necessária no ambiente. Por fim, um pouco menos urgente, está a troca do carpete. Urgente é uma aspirada nele.

Se a estante for eficiente a ponto fabricar espaço, ponho uma rede.

Montar uma casa – neste caso, o interior dela – é legal. Quando criança, o mais legal era construir, e não brincar com o pronto. Os Comandos em Ação não eram legais em si, mas sim as várias construções que “exigiam”. Eram bases militares. O mesmo vale para carrinhos e pistas de corrida. Bem mais legal era construir que só tirar da caixa. Com a casa parece ser igual. Fui percebendo isso aos poucos. De início, a única coisa legal parecia a “independência”. Que tem seu valor, mas não é única entre os atrativos de uma moradia nova.

Paralelo ao interesse em montar a casa, está presente, com menos força, uma dúvida. Não é medo, é dúvida. Pode ser pelo pouco tempo, pode ser pela manutenção do antigo quarto. Pode ser pelas coisas que ainda precisam ser feitas. Ainda vejo o apê como transitório. Chamar de “provisório” seria radical. “Transitório” admite um período mais longo. A dúvida da permanência não chega a incomodar, mas ainda existe. De qualquer forma, aquele é o “apê”. A “casa” ainda é esta aqui, que agora é, oficialmente, “antiga”, “última”, “segunda”. São denominações de obrigação. Ainda é estranho dizer “vou pra casa” ao me referir ao apê 205.

No apartamento que morei dos 0 aos 7 anos, nossa porta era a “1”, no térreo. Meus pais compraram na planta, em 82, assim como todos os outros ocupantes. Aliado a isso, já eram casados, a firma estava começando e a cidade toda era nova para eles. Creio que chamar de “casa” foi bem mais rápido naquela situação.

Escrito por juliano às 10h27
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Bicicleta

Quando ando de bicicleta passo por vários lugares. O início costuma ser de maior energia. Invisto em idéias loucamente. Vou pedalando rápido, pois geralmente estou ansioso para aproveitar o passeio por inteiro – mas treino para ser calmo nessa fase e curti-la sem pressa. Vou indo e passando entre as quadras, virando as esquinas e trocando os assuntos. Assim como a câmera de Tiros em Columbine vai acompanhando diferentes personagens, exclusivos de cada vez, e como uma pulga que viaja o mundo de pêlo em pêlo, vou correndo esse labirinto. Esse pedalar cansa. Então fico mais quieto. Os últimos quilômetros são uma leve descida. Vou apenas guiando, quase deitado sobre a bicicleta que desliza. Posso testar os diferentes modos de ficar ali. Pulo para a garupa, subo no guidão, fico de pé sobre o quadro. Chego em casa, tomo um banho e relaxo.

Escrito por juliano às 01h15
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Endereço sugestivo

No Rio de Janeiro, quando a PM comum não dá conta, chama do Batalhão de Operações Policiais Especiais, o BOPE, aquele que tem uma caveira em seu símbolo. São os caras que entram na favela em pé de guerra.

O endereço do BOPE é sugestivo: Palácio da Caveira, Vale dos Ossos Secos. Mas termina bonitinho: rua Campo Belo, 150, bairro Laranjeiras.

www.policiamilitar.rj.gov.br/bope

Escrito por juliano às 20h07
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